segunda-feira, 11 de julho de 2011
Nós vamos dizer adeus. Então, fingiremos que nada aconteceu e que não sabíamos da existência do outro. Fingiremos que essa amizade nunca existiu. Mas será que aquilo poderia ser considerado como amizade? Porque é isso que acontece. Você encontra pessoas, e depois as perde, é inevitável. E despedidas, que você achou que nunca doeria. São essas despedidas que doem mais.
Sentados frente-a-frente, o menino olha nos olhos da menina, que, por conseguinte abaixa a cabeça, deixando uma única lágrima rolar sobre seu rosto. Ninguém diz nada e o vazio corrói o corpo de ambos. Nada ali poderia ser feito e a tristeza que pairava sob aquele lugar, aumentava, e aumentava e aumentava.
Num único impulso, ela, com a voz ainda falha por conta do choro diz:
- Eu nunca sei o que dizer quando você me pergunta o que está errado. Como eu posso dizer que você é tudo o que eu quero, sabendo que não poderei lhe ter e que, isso me faz desmoronar?
Ele fitou-a coléricamente, sem dizer absolutamente nada. O silêncio se seguiu por mais alguns minutos, e ela parecia não aguentar. Estaria agora, perdendo seu melhor e único amigo, por conta de um sentimento que mal ela sabia explicar. Que mal ela sabia definir. O tempo foi passando e ela continuava a chorar silenciosamente. Na penumbra do lugar, ele mantinha-se inerte. Pensativo, mas sem esboçar qualquer reação. Pensara consigo mesmo “nada mais será como antes”. Talvez nunca fora, talvez nunca houvera tido o antes.
- Eu sinto que não é a decisão certa a se tomar. Pensa em todos esses anos. Pensa em tudo o que aconteceu, de uma forma ou de outra. Por favor, pense.
Ela falava em vão, porque ele não ouvia e nem se importava muito com o que estava acontecendo. Mas seus olhos, inchados mostravam outra coisa. Talvez ele não fosse tão forte como tentava demonstrar. O tempo continuou correndo e continuavam em silêncio.
Ela estava sozinha para uma boa parte de sua vida de adolescente, e de sua vida adulta. E nós estamos realmente indo longe para com a vida dela.
Ele achou melhor assim, preferiu ficar apenas com a companhia dos seus cães do que a companhia dessa menina, cujo nome escapa sua memória na maioria das vezes. Eles dormiram juntos uma vez, em sua cozinha, num domingo à tarde. Quando cada qual foi para seu lado, ele continuou pensando nessa menina cujo nome jamais foi presente em sua mente. Não era por estar apaixonado por ela, uma vez que você perde todo foco das outras coisas, pois a sua vida se direciona aquela pessoa. E ambos se perdem, entre si. E o que era dois passa a ser apenas um. Somente um. No tempo em que isso durar. Para ela nada mais importava. Mas ele se sentia incomodado com isso.
- Será que para você, nada do que aconteceu teve um significado, uma importância?
Não adiantava ela falar, pois nada do que ela dissesse poderia mudar as perspectivas dele e tudo voltaria à estaca zero. Ela continuou chorando e seu monólogo continuou se seguindo por mias tempo ainda. A tarde estava caindo e nenhum dos dois queria sair dali. Ela tentava reconciliar e tentava recuperar o tempo perdido, usava todas as suas forças ali. Ela realmente precisava dele.
Ele procurava forças para tentar dizer algo, embora suas palavras estivessem brincando de esconde-esconde em sua mente. Não as encontrava, pois elas simplesmente se embaralhavam e sumiam, o que o deixava ainda mais agonizado.
A cena da noite em que passaram juntos, passava como um filme preto-e-branco na cabeça dos dois. Ela via esperança e ele não via nada, apenas um filme qualquer, com duas pessoas sem a menor importância.
E o que se seguiu esse momento pode ser resumido como rígido sopro da mente e um gosto adquirido.
Depois que ela já se encontrava destruída em quatro ou cinco pedaços diferentes, ele a olhou nos olhos da maneira mais seca, dizendo:
- Eu nunca vou te amar, e espero que você possa ver claramente isso.
Tudo o que ela poderia pensar, acreditar, imaginar se misturou em seus olhos e nada poderia ser dito, com o silêncio que continuou se seguindo. Seus olhos cheios de lágrimas, sentindo a garganta espetar e o coração queimando, gritava sem voz, e o seu anseio se alongava em vão. Ele estava decidido disso.
- Mas porque não?
Era a única coisa em que ela poderia dizer. Estava diante do seu melhor amigo, com quem ela fora criada e dividira todos os momentos de sua vida. Seus medos, anseios, dores, alegria. Tudo fora compartilhado com ele, tudo o que aconteceu teve a participação dele. Desde sua infância até os dias atuais. E, de um dia para o outro ela passou a vê-lo com outros olhos, e isso o fez se sentir desconfortável. Ele não a queria como ela o queria.
Ela queria amor, ele apenas sexo. Ele não sentia falta da amiga excelente que sempre tivera, embora ele nunca fora um amigo excelente, pois se preocupava demais com as outras coisas, que ele julgava ser mais importante.
Ela sentia vontade de morrer, ela não conseguia sentir mais nada, nem desgosto, nada. Talvez tivesse ouvido a história de Romeu e Julieta vezes demais, e colocado na cabeça, que não podia morrer de nada, além de amor. Morrer de amor por alguém que não está se importando com ela. E ela se perguntava porque essas coisas acontecem justamente com ela. Mas mal ela sabia que essas coisas acontecem o tempo inteiro.
- Você já leu a bíblia? – perguntou ela.
- Alguns pedaços sim. Porque? – Ele devolveu da maneira grossa que lhe era habitual.
- Bem, você deve saber, então, que Adão e Eva tiveram dois filhos. Caim e Abel. Abel era o filho de ouro, fazendo sempre a Deus orgulhoso, sempre tendo algo para mostrar para si mesmo. Enquanto Caim era o filho problema, o problema, o desamor. Abel ofereceu algo para Deus, e ele foi elogiado. E Caim ofereceu algo para Deus, e ele foi desprezado porque sua oferta não estava certa, e Deus disse a Caim: "Por que te iraste? E porque o teu semblante? Se bem fizeres, não serás aceito?”
Ele a olhou, de modo que parecia a estar desprezando, mas no seu interior ele prestava atenção em cada palavra cujo ela proferia.
Retornando ao que dizia, agora com algumas poucas lágrimas no rosto, ela continuou:
- Em suma: Por que você com raiva de mim? Por que você está chateado? Se você fizer as coisas bem, não será aceito?
- Mas essa é a droga de questão aqui!
Ela chorava. Ele a olhava miseravelmente, e se sentia confuso, horrorizado, e por vezes achou que vomitaria. Mas conseguiu reunir forças para dizer:
- Esse é o maldito problema aqui. Eu sou Caim e você é Abel. Nós viemos do mesmo lugar e compartilhamos estados de espírito semelhantes, mas as coisas que faço não estão certas. Eu vou destruir você, e você tem que entender isso.
Ela chorava, não entendia. Não sabia como aquele amigo tão querido poderia estar proferindo tal coisa. Ela não estava mais entendendo nada. Quando estavam juntos, parecia que ele a amava e ela tinha plena certeza disso. Ela queria continuar amando-o, tendo-o ao seu lado, mas depois de um tempo ele pareceu recuar. Ela não se lembrava de quando isso aconteceu, ela possuía alguma vaga lembrança. Quando, inexplicavelmente veio em sua cabeça a cena dele brigando com a mãe e com o pai. Uma cena horrível. Não era uma briga qualquer, talvez ele tivera descoberto algo, mas que não poderia ser dito, de maneira alguma.
- Mas você não vai. Você não pode. – Ela dizia, agora temendo sua vida. Aquele não era seu amigo, aquele não era quem ela ama.
- Eu preciso. E quando Caim matou Abel, Deus disse: “Agora maldito és tu desde a terra, que abriu a boca para receber o sangue de teu irmão da tua mão. Vagabundo serás na terra”.
Ele continuou dizendo:
- Meu castigo é maior do que posso suportar.
Ela não entendia. Quando no fundo ela tinha uma idéia do que acontecia, mas não poderia acreditar nisso. Só restava, então, tentar esclarecer aquilo.
- Mas você não é Caim. E eu não sou nenhuma menina de ouro. Eu não sou Abel. Nós somos dois seres humanos e vivemos em nossas vidas, nos amamos há tanto tempo. Podemo-nos compartilhar esse tipo de dor juntos?
- Você é Abel, e eu sou Caim.Você não pode mudar quem você é. E agora que eu tenho que lhe assassinar, você irá descansar em paz, minha irmã.
O mundo parou naquele minuto. E pela primeira vez, aquela dor, que estava anestesiada voltou em sua forma original, muito mais dolorosa e cortante. Como poderia? Eles eram seres tão diferentes que buscavam em si uma única semelhança. Eles se completavam e não eram o que aparentavam ser a quinze minutos, uma hora ou um dia. Aquilo estava mudando e ela engoliu seco, sem ter reação. Olhou-o nos olhos e viu que havia uma lagrima correndo sobre a face dele, inquietamente e seus olhos vermelhos mostravam a ela que a dor que ele estava sentindo era igual a que ela sentia e eles se abraçaram.
Um abraço em que misturou todos os sentimentos possíveis. Ela sentiu seu coração acelerar e ele mal sentia o seu bater. Eles sentiam vontade de morrer ali, abraçados. Tudo estava silencioso. Não porque a amava, mas porque ele sabia que não podia. Embora o primeiro seja um fato Ele chorava ainda mais, em que ele nunca teve coragem de admitir.
- Eu te amo, independentemente se você for meu irmão ou não. Você é meu primeiro amor e eu nunca me esquecerei de você.
Ela saiu andando após dizer isso e ele continuou sentado no mesmo lugar. Quando ela atravessou a rua, subitamente um carro a atropelou e ela morreu instantaneamente. Ele deu um grito e correu até lá. Era tarde. Era tarde demais para tudo.
“Isso não pode estar acontecendo” pensava. Só agora, ele, sentado na calçada com o corpo dela deitado sobre suas pernas, disse:
- Eu te amei por todo esse tempo, eu sempre te amei. Por isso fiz o que fiz.
Era tarde demais e todos sabiam disso. Ele não conseguiria ver agora, sua vida sem ela, e todo o anseio que ela passou quando conversou com ele, passou sob seu corpo e só então ele se deu conta do que ele provocou. Não havia mais motivo para ele viver, não havia mais nada. E, daquele jeito, ele tirou o sinto da saia dela e se enforcou com o mesmo, deixando seu corpo ali, no meio da rua ao lado do dela. Dois indigentes que um dia talvez tenham tido sua história.
Tempos mais tarde, na espiritualidade, ele chegou para Deus, inconformado e perguntou porque isso aconteceu, e em súbitas palavras, ele respondeu: “Porque você, meu filho, quis assim”.
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Como se vê, foi um texto grande e talvez por isso muitos desanimarão ao ler, isso sem falar os que não se darão ao trabalho de ler. Tudo bem.. Só queria deixar claro que nem tudo nessa vida é como queremos, e muitas vezes nos vemos obrigados a aceitar uma condição que, ao primeiro momento parece inaceitável. Mas dependendo de como você encara o mundo, você verá o quanto isso pode ser bom.
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